Ϛ O silêncio, às vezes, nos traz significativas reflexões... ele nos permite avaliar as mais íntimas percepções, os mais secretos sentimentos... que, quando externados, mostram quem realmente somos... Talvez não seja preciso falar... Basta perceber, observar e sentir. ï

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Metamorfose

Manhã de janeiro. Tempo frio. Era mais um dia na vida e na rotina de Sara. Como de costume, ela abria as janelas e se deixava levar pelo aroma das flores do seu jardim. Era como se suas rosas soubessem o quanto seu perfume agradava Sara: exalavam o melhor dos cheiros matinais. Como num ritual, todos os dias Sara era saudada pela brisa que invadia a sala e, na janela, começava a sonhar...
Sara vivia numa pequena cidade do interior de Minas Gerais, e, como menina que era, aos dezenove anos, possuía todos os sonhos do mundo. Um deles era ser enfermeira e o outro... bem, o que uma menina de dezenove anos poderia sonhar? Sim, Sara sonhava em ser feliz. Como que a resgatando, uma voz familiar interrompeu os devaneios matinais de Sara. Era seu pai:
— Sara!! — falou seu pai com a impaciência de sempre – Acorda! Não reparou que está atrasada para o trabalho? Sempre no mundo da Lua, menina!
– Oh, pai! Tem razão, já estou indo!
Os dias eram sempre iguais para Sara: trabalho, casa, igreja... Nada mudava em sua rotina há anos. Mas ela não queria isso. Ela sonhava e sonhava... Ela era uma menina... Tinha 19 anos! Não era difícil pegar Sara pensativa, mergulhada em seus pensamentos, concentrada em suas dúvidas, sonhos e ilusões adolescentes. Porém, aquele dia não seria tão comum para Sara e ela sentia que algo aconteceria, mas não podia imaginar o que era.
Sara trabalhava em uma loja de roupas femininas. Não era um mar de rosas, nem era onde gostaria de estar, mas fazia suas obrigações com empenho. Era pontual, simpática e organizada. Porém, como sempre, se distraía e, em muitas ocasiões, foi advertida pela sua superior: “Sara, acorda, menina!”. Dessa vez, o que a interrompeu foi uma mão em seu ombro. Sara percebeu que estava em pleno trabalho e tinha sonhado acordada de novo. Ela tinha prometido se controlar! Ali não era local de distrações! Rapidamente, se virou e seu olhar viu os olhos mais lindos que já havia visto. Eram olhos verdes, desconhecidos, penetrantes, promissores, que fizeram Sara se perder mais uma vez.
– Bom dia, moça.
– ...
– Moça?
– Olá... desculpe. Em que posso ajudá-lo? – Disse Sara com dificuldade, sem desviar os olhos do jovem rapaz que a observava com um ar risonho.
– Bem... na verdade, gostaria de comprar um presente para minha mãe, aqui tem lindos modelos, creio que vim ao local certo.
– Sim, veio sim...
Já imagina o que se seguiu, não é? Sara agora tinha mais um motivo para sonhar. Em casa, não conseguia pensar em nada além daqueles olhos. Estaria apaixonada? Mas como? Não houve tempo para isso... “como eu sou boba!”, pensava. Mas Sara não era boba, ela estava certa. Era o amor. Ele a havia achado, tão rápido, tão certo. Era ele.
Daquele dia em diante, Ricardo visitava Sara todos os dias. Sim, esse era o nome do rapaz que roubou os pensamentos da nossa menina. Ele também se deixou levar pelo sentimento que os invadiu naquela simples manhã de janeiro, fria, rotineira, mas nada comum. Aquela tinha sido a primeira de muitas manhãs que passariam juntos. Ambos estavam apaixonados.
Estaria Sara vivendo um sonho? Todos os dias ela se perguntava e agradecia a Deus por tudo de bom que estava acontecendo. Agora ela tinha o seu amor e nada poderia estragar o que estava sentindo. Se tudo fosse tão simples... Mas não era. Ricardo não morava na pequena e aconchegante cidade de nossa sonhadora. Ele morava em São Paulo, e para a tristeza de Sara, teria que voltar para lá.
Alguns meses já passados, Sara tinha certeza de seus sentimentos por Ricardo. Ele, idem. Porém, a distância os fazia sofrer de um modo inexplicável. Doía, machucava, fazia com que o choro adquirisse um ar companheiro. Sim, Sara chorava, ela não entendia por que a felicidade parecia ser tão cruel às vezes. Talvez o seja para que aprendamos a dar valor às nossas conquistas no final.
Ricardo, sempre que podia, ia visitar sua menina. E, numa essas visitas, resolveu tomar uma atitude em relação a ambos:
– Minha querida, eu te amo tanto... não consigo ver meu futuro longe de você! Você sente o mesmo?
– Claro que sim, meu amor. Não acredita?
– Sim, eu acredito. Você me confirmou o que eu já sentia em seu olhar. Quero que preste muita atenção no que vou dizer agora.
– Pode dizer.
– Quero que você seja a minha esposa. Para sempre, meu amor! Aceita se casar comigo?
Naquele momento, Sara não pôde conter o choro que lhe invadia os olhos. Desta vez não era de tristeza, era de alegria. Um dos seus sonhos estava se tornando realidade. Ela era a mulher mais feliz do mundo naquele momento. Entre soluços disse:
– Claro que aceito, meu amor. Eu amo você.
Novamente Ricardo teve que voltar a sua cidade. Desta vez, deixando sua noiva. Sua futura esposa. A separação era sempre dolorida, mas agora havia nos olhos de ambos a esperança de que aquilo tudo iria passar e em breve estariam juntos para todo o sempre.
Pela manhã, Sara abriu a janela e observou suas flores. Deixou-se levar pelos seus sonhos. Mas agora eles tinham cor, tinham nome, tinham um ar tão real como nunca haviam tido. Seu pai a interrompeu como sempre e a chamou de menina. Menina? Nesse momento Sara se lembrou de que tinha apenas 19 anos. Lembrou-se de seus sonhos acadêmicos, lembrou-se de que ainda não havia realizado alguns planos.
Estaria Sara preparada para tanta responsabilidade? Ela iria se casar! Com pressa, Sara se dirigiu ao seu quarto. Mais uma vez chorou. Não tinha dúvida do seu amor por Ricardo. Por que aquele choro não cessava? Sara não se perdoava por não poder controlar seu choro. Sim, ela estava com medo. A incerteza do futuro nos torna pessoas frágeis, inseguras. Com nossa menina não foi diferente.
Porém, de repente Sara se levantou, foi até o banheiro e lavou o rosto. Fitou-se por um longo tempo no espelho.
– O que há com você, Sara? – disse firmemente para si mesma.
Sua imagem refletida não trazia mais a menina de sempre, a menina sonhadora. Agora, o que se via era uma mulher, uma mulher forte, corajosa. Uma mulher que não deixaria de sonhar, mas que a partir daquele momento começaria a viver os seus sonhos.
Sara se olhou mais uma vez. Ela estava mais calma. Nossa menina sonhadora virou mulher e o futuro a aguardava de braços abertos. Sara sorriu decidida:
– Hora de ser feliz!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Acróstico

Olha que a vida passa
Brilha, espera, grita por ti...
Sem compreender, tu segues
Em meio à verdade, negas
Sem perceber que vives
Sem esperança, amor ou previsão
Assim, teus dias passam, tua vida escoa, tua luz apaga!
Olha que o tempo é breve... e não vai voltar.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Jogador

Lembro-me de ti, jogador
Dias incertos aqueles,
Dias injustos aqueles!
Dias em que havia esperança
Havia você, muitas vezes... raras
Havia, às vezes, tua voz... de menino
A alimentar-me os dias de sonhos
De um futuro bom...
Por mais incerto que fosse...
Havia amor, havia ternura, havia...
Hoje não mais...
Hoje não estais
Hoje, onde estais?
Onde estais, jogador?
Pergunto-me se és feliz
Pergunto-me se valeu a pena
Pergunto-me: por quê?
Hoje tua lembrança me veio de repente
Repentinamente, como surgias
Pergunto-me: por quê?
Hoje só restou a nostalgia
Do tempo em que quase foste meu
Do tempo em que eras tudo
Eras tudo, jogador
Eras...
Foste...
És?

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

À (a) proCURA

Definitivamente os tempos são outros... Quando paramos para observar o que nos cerca, temos a impressão de que as pessoas perderam o sentido da vida. A busca frenética por diversão, a apologia à superficialidade, a risada descontrolada, que nada tem a ver com felicidade, a luta por atenção, a solidão maquiada pela aparente popularidade, a falta de fé, a apostasia... Tudo isso espelha um ser humano praticamente vazio. De valores, de perspectivas, de amor. Sim, o sentido de amor está estigmatizado. Todos querem ter, ninguém sabe se o tem e o que se vê é uma eterna busca pelo preenchimento dessa ausência.
Vontade de constranger o outro, prazer em fazê-lo, sede de poder. Hoje presenciamos dia a dia o culto à força, a lei da vantagem, o “jeitinho” que sufoca a competência e o caráter... Policiais que deveriam cuidar, humilham. Pais que deveriam cuidar, abandonam. Autoridades que deveriam cuidar, enganam. E a educação, que deveria resgatar, rasteja, espera, suplica, sofre...
De fato, o quadro é desanimador. Presenciamos pilares sucumbindo e assistimos atônitos, de mãos atadas, o caminhar da sociedade rumo ao desconhecido. Ao caos, talvez? Incógnita. Os que estão envolvidos com a educação recebem todos os anos rostinhos sonhadores, gestos agitados, energia infinita. Será que não há um jeito de ajudá-los a acreditar?
 Talvez o erro esteja no “esperar que façam alguma coisa”. Ninguém fará se não o fizermos. A chave está na palavra de conforto, no olhar, nos gestos, no sorriso. Alimentamo-nos de esperança cada vez que um desses atos é involuntariamente praticado. Sim, precisamos de menos lamentação e mais ação, precisamos de Deus, precisamos uns dos outros. Há um jeito, há uma solução. Sim, o amor ainda existe e ele está em nós. Compartilhe-o.
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